Sem moagem não se transforma o cereal em pão. Para reduzir a farinha os grãos fazem falta moinhos, sem os quais as searas se tornam inúteis. Em Mira os cereais foram o centeio, o trigo e o painço, os quais se cultivaram desde a Antiguidade até ao século XVIII, quando cederam o lugar ao milho trazido pelos Descobridores do Novo Mundo. Correlativamente, há evidências arqueológicas e documentais da existência de moinhos nesta região desde o Período Romano até aos nossos dias. Os moinhos foram sempre, literal e figurativamente, uma engrenagem fundamental da civilização agrícola.

Para compreender o pleno significado dos moinhos faz falta ter em conta o contexto tecnológico, econômico, social e jurídico da Europa do Antigo Regime, ao qual os ideais da Revolução Francesa de 1789 vieram a pôr cobro.

Antes de os modernos motores a eletricidade, a vapor, e de combustão interna serem inventados e divulgados, as únicas fontes de energia motriz exploradas pelo Homem eram os ventos, as águas correntes e a tração animal. As azenhas e os moinhos, engenhos de moagem capazes de domar estas energias e convertê-las num movimento circular de mós para triturar os grãos, faziam parte da "tecnologia de ponta' pré-moderna.

Os moinhos da gândara mirense são ditos "de rodízio": a roda motriz que captura o impulso das águas está disposta horizontalmente, em contraste com as rodas motrizes das azenhas, que se dispõem na vertical.

A profissão de moleiro era das mais especializadas, prestigiosas e rentáveis que poderia assumir um homem dos meios rurais que não integrasse os grupos privilegiados da Nobreza e do Clero. Não era moleiro quem queria, mas quem nascesse filho de moleiro — isto porque a exploração de moinhos estava sujeita a um licenciamento muito restritivo por parte da Coroa, sob a forma de aforamento (uma modalidade arcaica de arrendamento perpétuo cujas rendas se denominavam foros). Uma vez que estavam banidos os moinhos que não dispusessem de licença régia. aos foros de moagem também se dava o nome de banalidades, as quais foram aqui cobradas até 1643 em nome da Coroa pela família fidalga Sousa Tavares, Senhores de Mira, e a partir daquela data e até 1833 pela Casa das Rainhas. Ao pagamento do camponês pelos serviços de moagem propriamente ditos chamava-se maquia.

Como os troços de cursos de água propícios à construção de açudes e levadas para moinhos escasseavam relativamente às necessidades das populações, e os aforamentos por consequência eram pouco numerosos, o mercado dos serviços de moagem constituía um oligopólio natural onde o preço podia ser controlado pelos moleiros e aforadores — uma boa maquia.

 Além disso, o trespasse de um aforamento exigia o pagamento de uma pesada recompensa (o chamado laudémio) ao senhorio da moagem, encargo que barrava o acesso à exploração por quem tivesse poucos recursos. Por isso, em Portugal como em todo o continente europeu, a profissão de moleiro praticamente só estava ao alcance de quem herdasse tal lugar, e com ele até mesmo o apelido (Moleiro, Molero, Meunier, du Moulin, Müller, Moller, Mill, Minei. De tal forma a moagem era rentável sob o Antigo Regime que no Norte da Europa existem famílias que apesar de não serem nobres adoptaram orgulhosamente brasões onde figuravam rodas, mós e grampos de mós.

Os ventos da História vieram contudo varrer da paisagem económica e jurídica todo este complexo entrarnado. Primeiramente a abolição dos direitos senhoris no século XIX eliminou as cobranças de foros, laudémios e banalidades. Seguidamente a concorrência da moagem industrial movida a combustíveis petrolíferos ou a electricidade, a partir da segunda metade do século XX. reduziu significativamente os rendimentos dos moleiros tradicionais. Entretanto introduzido nestas terras, o cultivo do arroz — cujo descasque é feito em moinho — não foi suficiente para garantir o protagonismo desta tecnologia tradicional.

Pesem embora estas adversidades recentes, os moinhos de Mira continuam ativos tanto devido à persistência de alguns moleiros cujo sustento ainda se obtém por essa via, como graças ao empenho de uma associação de defesa do património molinolõgico da região da Gândara. De igual modo se mantém em funcionamento a rede de valas que lhes forneciam energia hídrica.

                                                                                                                                                                                                                              Pedro Bingre